A Cultura na Fazenda Tamanduá

Cheguei em 1974 diretamente de Paris para São Paulo, sem falar português e com imagens do Brasil bastante negativas ou com clichés estúpidos. A vida em São Paulo não é mole quando não tinha ainda os amigos e a chave para curtir esta cidade tão rica e fervilhante, dia e noite. Felizmente, rapidamente, descobri o caminho de um pequeno café bar perto da Consolação, o Jogral, onde tive a oportunidade de mergulhar na música popular brasileira, com artistas de todas as partes do país, cada um mais interessante e emocionante, mesmo sem entender todas as letras. Vozes, ritmos, instrumentos diferentes, tudo conspirava para me dar o gosto desta cultura mal conhecida tanto no Brasil como fora dele.

Adquiri a coleção dos discos de Marcus Pereira que começava a sua carreira divulgando uma série impressionante de discos sobre a Música Popular do Nordeste e logo me apaixonei. Descobri também o Movimento Armorial, de Ariano Suassuna e Cussy de Almeida, com músicas inesquecíveis do Quinteto Armorial tocadas em particular por Antônio Nóbrega, com a sua rabeca, instrumento ressuscitado do passado da música popular do Nordeste. Até hoje, sou fã de Antônio Carlos e do Balé Brincante que fundou em São Paulo, acompanhando os passos dele.

A programação musical do Museu de Arte de São Paulo, MASP, trazia também perolas nordestinas, e lembro-me de ter visto a Banda de Pífanos de Caruarú, com os membros da família Biano, totalmente a vontade no palco e contando em detalhes a vida do interior nordestino, acompanhado pelo ritmo dos pífanos.

Em 1977, depois de uma longa viagem iniciática de Jeep no sertão do Nordeste à procura de uma fazenda onde poderia plantar o algodão mocó, perene e de fibra longa, sinônimo de qualidade, encontrei a Fazenda Tamanduá, no semiárido paraibano.O primeiro contato musical foi com violeiros e cantadores. Nas portas do Mercado Municipal de Patos, sempre tinha uma dupla, e bem frequentemente um tocador de pandeiro. Quando recebi o título de Cidadão Patoense convidei uma dupla para alegrar mais ainda este instante. Organizamos noites de cantorias na Fazenda e, em particular, uma memorável, com o grande repentista Ivanildo Vilanova, um dos maiores nomes da cantoria nordestina. Ele apresentou o seu filho, Iponax, poeta e declamador, resgatando uma arte que animou jovens e velhos com seus versos de duplo sentido e histórias rimas de luxo.

Na época tinha até um programa no Rádio Espinharas, as 6 horas da manhã, somente de violeiros, “Acorda Sertão”. O dia começava com música e cultura. Uma alegria total.Corri para Serrita, PE, assistir a Missa do Vaqueiro, cuja música maravilhosa do Quinteto Violado era amada e que conheci em concerto em São Paulo .

Mas o choque cultural foi o forró pé de serra, na sua formação do rio, definida e implantada de maneira definitiva pelo imenso Luiz Gonzaga : sanfona, zabumba e triangulo. Tive a oportunidade de falar com ele no finado restaurante Rodeio de Boa Viagem, em Recife, e de assistir a uma apresentação dele no fim da sua vida em cima de um caminhão, na rua principal de Patos, promovendo o “Café Petinho, na lata”! Saudades! A partir do nosso vaqueiro Rúbens, cantor e tocador de triangulo do Nego Téu, morador da Fazenda Tamanduá, tocador de zabumba, e de um sanfoneiro patoense, fundamos o Trio Tamanduá. Nenhum evento, aniversário ou festa na Fazenda foi realizado sem o famoso Trio Tamanduá que ganhou até fama internacional, convidado a tocar no Montreux Jazz Festival em 2008.

Em 2007, sabendo do meu amor ao forró, o meu amigo suíço Bernard Robert-Charrue, me procurou para realizar um filme sobre o forró. Decidimos focar o cenário em cima do forró pé de serra, roots, com músicos paraibanos conhecidos e até desconhecidos em boa parte como o Aleijadinho de Pombal, o Trio Tamanduá, o finado Pinto do Acordeão, os Três do Nordeste e Flávio José, encontrando o imenso sanfoneiro Richard Galliano numa casa de taipa da própria Fazenda Tamanduá. O amigo Chico César, nos fez a honra de contar a história do forró, com anedotas maravilhosas e momentos musicais excepcionais nestes duos com Richard cedendo até o nome de “Paraiba meu amor” ao filme. Um dos momentos mais carregados de emoção é o diálogo sanfoneiro entre Richard Galliano e Dominguinhos, encontrado no São João de Campina Grande.

O filme, apresentado em vários festivais internacionais ganhou o Golden Reel Award no Festival de Tiburon na California. Outro grande Nordestino amigo é Alceu Valença. Nascido em São Bento do Uma, PE, e vizinho em Olinda. Inventor do “forrock”, ele tem tudo para me agradar, e eu tive até a alegria e honra de apresentar ele no Montreux Jazz Festival, empurrado no palco por seu fundador, Claude Nobs. Hoje uma imensa amizade existe entre nós.

Em 1999, fui convidado por Börries von Liebermann, organizador dos eventos de abertura da Expo 2000 em Hannover, a escolher músicos brasileiros, com algo visualmente marcante. Obviamente procurei nordestinos, mas infelizmente Antônio Nóbrega não pode aceitar o convite, já que tinha uma turnê marcada. Então, organizei a ida do Orquestra de Frevo Tropicália, com passistas, que acompanhava os meus carnavais olindenses, e o excepcional maracatu Nação Estrela Brilhante de Recife. Uma autenticidade total.

Mas, voltando à Fazenda Tamanduá, temos hoje mais um sanfoneiro amigo, Jaelson, que nasceu e se criou na fazenda onde o seu pai trabalhava. Brilhantemente, ele acompanha os nossos eventos e traz alegria a todos, em companhia do zabumbeiro Nego Téu.

Hoje, temos uma nova página da história de amor entre a Fazenda Tamanduá e a cultura popular nordestina começando: Maria Eugênia Nóbrega (Tita), filha de Antônio Nóbrega, resolveu dar uma parada na Fazenda, com o seu inseparável Cabeção.

Com liberdade total para criar, cantar, descansar, acessando pela web ou ao vivo, ela vai aproveitar estes momentos de pandemia para efetuar um retiro na Fazenda onde poderá comungar com a vida do sertão e uma fazenda diferente. Um novo capítulo cultural que se inicia.

Texto: Pierre Landolt

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Paraíba Meu Amor

Paraíba, Meu Amor mostra a união em estúdio de Dominguinhos com o acordeonista francês Richard Galliano. Os dois deveriam se encontrar na França, mas Dominguinhos não viaja de avião, então o Richard veio ao Brasil.

O documentário intercala entrevistas e apresentações de Chico César, nascido no Sertão do paraibano, além de Aleijadinho de Pombal, Trio Tamanduá, Pinto do Acordeon e o grupo Os 3 do Nordeste, entre outros. O Filme é do cineasta suíço Bernard Robert-Charrue, que, sendo amigo pessoal de Pierre Landolt, usou a Fazenda Tamanduá como cenário.

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Festa Junina da Fazenda Tamanduá

De junho a julho, o sertão nordestino se veste com bandeirinhas, fogueiras e quermesses que ganham as ruas e igrejas do agreste da Paraíba.

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Tita

A Fazenda Tamanduá recebe em residência artística Maria Eugenia Nóbrega, a Tita. A artista desenvolve uma pesquisa cênica a partir das manifestações tradicionais brasileiras e se estabeleceu na Fazenda com o propósito de criar conteúdos artísticos e pedagógicos audiovisuais. Compartilhando ritmos e danças brasileiras, ela se utiliza do cenário poético do sertão para transmitir as singularidades da cultura e da paisagem local. Maria Eugenia também conduz um trabalho artístico com jovens moradores da Fazenda, unindo o envolvimento deles com o forró a novas referências artísticas.

Dudu Vaqueiro

Foi observando e admirando o trabalho do pai e dos demais vaqueiros da Fazenda Tamanduá que José Carlos de Brito Morais, o Dudu, aos 6 ou 7 anos de idade, decidiu o que queria ser quando crescer: Vaqueiro. Já rapaz começou a ajudar a cuidar do gado e a montar, começando ali uma relação de amor com os animais.

Deixou a Fazenda por 3 anos e foi tentar a sorte na cidade trabalhando como pintor. Mas a paixão pelos animais e pela memória afetiva o fez retornar 3 anos depois. Dudu ama seu trabalho e diz que a única coisa que o entristece é quando algum dos animais fica doente. Por isso, junto com os veterinários, acompanha todo o tratamento até que tudo fique bem. Casado com Silvana, que também cresceu na Fazenda, eles têm dois filhos, João Carlos e Maria Eduarda.

Mais que uma profissão, Dudu sabe que o Vaqueiro faz parte da identidade do sertanejo e que seu trabalho eterniza a memória de seu pai e dá continuidade a um dos símbolos mais importantes do semiárido e da cultura do nordestino.

Jaelson A Gaita Mágica

Jaelson chegou à Fazenda aos 9 anos de idade e logo ganhou uma bicicleta de sua mãe. Contudo, sua paixão era a música. Um certo dia, seu irmão trocou a sua bicicleta por um teclado. Dali em diante começou a tocar e nunca mais parou, sempre com o apoio da Fazenda Tamanduá e do Dr. Pierre. Aos 15 anos foi convidado para tocar em uma banda e, chegando lá, precisou substituir o sanfoneiro que havia adoecido. Foi nesse momento que despertou o interesse de Jaelson pela sanfona e pela gaita. Jaelson é músico profissional e, até hoje, atua como sanfoneiro e ajuda a preservar a cultura nordestina.

Lúcio da Spirulina

Lúcio de Brito Morais tem 46 anos e trabalha no campo desde os 15 anos. Filho de vaqueiro, Lúcio conhece a Fazenda Tamanduá como poucos. Criado e crescido na Fazenda, já trabalhou em diversas atividades, como na irrigação das mangas e dos melões e na desidratação de frutas. Hoje, Lúcio é responsável por um dos projetos mais importantes dentro da Fazenda: o cultivo e a produção da Spirulina, o que o deixa orgulhoso e feliz por ser um dos especialistas no conhecimento da técnica no país. Casado com Marta, que também cresceu na Fazenda, tem 3 filhos: Fábio, Lucas e Fernanda.